quinta-feira, 16 de abril de 2020

Teremos sempre Paris

Cruzámos os ares esmagados em cadeiras de baixo custo. Aterrámos à noite, mais uma vez carregados de nada e com vontade de pisar o chão sujo de milénios de passos dados. De novo em Paris, a cidade onde se volta sempre. Os que pariram esta interculturalidade de faz de conta estão prestes a ser devorados pela sua própria cria. A terra onde se inventou o Ocidente prestes a afogar-se na herança do seu próprio colonialismo. Ricos e pobres sobrevivem no medo uns dos outros. Coletes amarelos, jilabas, nudez e alta costura. À chegada, soldados e polícias de todas as cores armados até aos dentes. Prontinhos a morrer pela França que lhes dá um bilhete de identidade e lhes promete as onze mil virgens ou o paraíso ser protagonista no telejornal. No aeroporto uma maratona de passadeiras rolantes paradas e vazias que foi preciso palmilhar. Com pressa, sorte e engenho, apanhámos o último comboio para a cidade. Gare du Nord. Seriam umas onze e meia da noite. Saídos da carruagem sombria e da estação imensa e suja, fomos a pé pela cidade em ebulição. Chegámos nessa hora mágica em que as prostitutas mudam de turno, os chulos brindam com os amigos e os bêbados ainda se conseguem mexer. Ladrões, bandidos, saltimbancos, intrujas, vigaristas e artistas de toda a espécie a tentarem safar-se no momento para pagar mais umas horas de renda na Cidades das Luzes. Longe, bem longe da Paris de franceses que trabalham nos serviços. Longe daquela Paris que existe, hermeticamente fechada e limpa em prédios de apartamentos com porteiras. Seguimos de mochila às costas pela cidade. Sempre a pé, desviados dos postais turísticos e do chique. Directos para a Paris real, a terra onde vivem dois milhões de pobres que não são franceses, mas que nunca conheceram outro país que não a França. Putos magrebinos a matarem-se uns aos outros em disputas por pontos de venda de haxe. Outros a vegetar nas escadas dos prédios à espera que aconteça alguma coisa. Quem lhes der um Corão salva-os do mundo. Entre bebedeiras, pedradas de heroína, propostas comerciais, abordagens religiosas, tentativas de extorsão e ameaças veladas, lá encontrámos o sítio para onde íamos sem grandes dificuldades. Cinco andares para subir sem elevador e sem casa de banho nos quartos. Tecnicamente ficámos num "hostel". Um antigo bordel, mais ou menos reciclado, mas que alia a santíssima Trindade de um alojamento: limpo, barato e central. Os proprietários são argelinos da Cabília, boa gente. Deixamos as mochilas e saímos para a rua. Seriam duas da manhã de sexta-feira. Bares cheios e senhoras a trabalhar pelas esquinas. Entrámos na primeira porta aberta e pedimos dois copos de tinto. Dissemos que não ao dealer oficial da rua, senegalês gigante, que nos veio propor coca. O empregado percebeu e reconheceu a desenrascada e latina forma de dizer que não, com firmeza, sem medos, mas sem arrogâncias nem superioridades. Chegou-se e sentou-se connosco, era argentino, de Buenos Aires e do bairro do Boca. Simpatia legítima. Bebemos juntos. Apareceu uma garrafa de vinho que a casa ofereceu. Continuamos a falar, saudosos da sua América, a Nossa América, a latina. Trocámos números de telefone. Subimos para o nosso ninho no quinto andar. Com o aquecimento ligado e a janela de vidros triplos, dentro do quarto estava uma noite de verão. Adormecemos como anjinhos aconchegados nos quarenta graus e no borgonha, cinco pisos acima da rua onde as poças no chão gelavam. Acordámos pelas nove, tomámos o banho possível e descemos. Café e chá no café do marroquino mesmo ao lado do hostel. Andámos com o sol ainda a brilhar baixo e uma temperatura próxima do zero. Fomos à feira da Ladra que aqui se chama das pulgas. O mundo inteiro à venda em tendas, lojas, bancas e panos no chão.... Namorei um jogo de xadrez em pedra, mas deixei ficar. Sem fazer compras, paramos numa roulotte, comemos omelete de cogumelos verdadeiros e bebemos cerveja artesanal. Depois rumámos à colina de Montmartre. Caminhámos calados e solenes entre os espectros dos camaradas massacrados quando nos esmagaram a Comuna. Subimos ao Sacré Coeur e misturámos com os outros que eram turistas. Música de rua e indianos a vender tubos telescópicos de alumínio para tirar fotografias. Sentámo-nos ao sol no jardim a fumar e a fazer a fotossíntese. Rimos, namoramos e tiramos fotografias a nós mesmos com os telefones. A fome fez-nos procurar onde comer. Encontramos um café mais ou menos decadente, pedimos pão, queijo e uma garrafa de Bordéus. Sobe-nos bem o tinto, o queijo não era mau, o pão era péssimo. Nas placas com os nomes das ruas recordámos livros e filmes antigos. Entrámos em várias lojas de discos, sexshops e livrarias. Não comprámos nada, tudo demasiado caro, demasiado datado, demasiado enfadonho, demasiado monótono ou demasiado plastificado. Com a memória da geração perdida, fomos ao Pigale beber um ricard. A Avenida Clichy, espreguiçava-se ao sol de inverno, tudo menos tranquila. Atracamos numa esplanada, pedimos uma cerveja e café. O mundo passou todo à nossa frente. Excursões de chineses, casais americanos, executivos alemães e rameiras, chulos e mendigos de todas as nacionalidades e cores. Com o cair da noite, as ruas foram-se enchendo. Numa travessa escondida e escura, na zona mais decrepita do Pigale, o destino e algumas referências prévias, levaram-nos a uma tasca que vende vinho de excelente qualidade e que tem pasta de fígado de ganso. Caseira. Feita com fígado mesmo de ganso, sem iscas de porco misturadas. Estava frio na rua e os ossos doíam só de olhar lá para fora. Pedimos uma garrafa para aquecer, comemos pasta de fígado, presunto, pão e queijo. Tudo bom. Veio mais vinho que bebemos. Fomos ficando na conversa mole sobre vinho e comida com a dona da taberna. Voltámos ao hostel já tarde e vagamente tocados. Com o calor do aquecimento sempre ligado, dormi pesado e acordei cedo com boca seca. Era domingo de manhã, na esquina comprei o Libe e fui à padaria buscar duas sandes para levar. Trouxe também uma baguete de sésamo deste tamanho que comi com o chá da manhã no café do marroquino. Apanhamos o metro até ao arco do Triunfo. Depois, descemos os Champs Elysêes até à Place de la Concorde. Cruzámos o Sena. Finalmente a tal Paris, dos canais de televisão especialistas em viagens. A Paris dos cafés para americanos. Paris das excursões turísticas, das luas de mel e dos casais de meia idade do Japão, Coreia e China a fazer fotos para emoldurar. Caminhámos pelo Quais D'Orsay até à inevitável Torre do Eiffel. Mais policias e militares de camuflado e uzi. Temperatura entre os zero e os quatro graus. Subimos as escadas de ferro evitando a fila e o pagamento. Lá em cima olhamos à volta, tiramos fotografias, fizemos juras de amor, especulamos sobre distâncias e queixamo-nos do vento gelado. Descemos e comemos as nossas sandes no jardim ao lado da ponte. O sol de inverno fica bonito nas fotografias, mas não aquece, bebemos chá quente do termo envolto numa meia de lã, mas mesmo assim, foi o frio quem nos sacudiu dali. Andamos mais de uma hora pelas ruas até ao hostel onde no nosso quartinho do quinto piso o verão era eterno e convidava ao descanso. O argentino do bar acordou-nos com uma mensagem a combinar irmos beber um copo às sete e meia. Eram sete e dez. Vestimo-nos para uma expedição polar e caminhamos cinco minutos até ao lugar de encontro. Aqui no 18º Bairro, há dez anos atrás só viviam argelinos e senegaleses. Mas o passar do tempo deu poder de compra à geração dos filhos dos que fizeram o Maio de 68... E estes franceses entre os 35 e os 50 anos, que cresceram nos valores da liberdade com padrões de consumo burgueses, sem preconceitos de classe e sem valores religiosos ou nacionalistas, preferem morar no Centro de Paris entre africanos e asiáticos do que nos subúrbios, entre brancos. Chama-se a esta subclasse emergente, Bobo, Boheme Bourgoise. É esta gente, quem alimenta economicamente o bairro e os seus pequenos negócios de cafés, mercearias, remodelações, livrarias, traficantes de drogas, lavandarias, oficinas de bicicletas e uma ou outra galeria de arte que vai aparecendo. Fomos para um café completamente cheio de bobos, africanos, latinos, e de magrebinos. Mesas compridas e toda a gente misturada. A esplanada virada pró canal do midi. Bebemos tinto e comemos pão com coisas que iam aparecendo: queijos, enchidos, patês e até conservas de peixe. Falámos de vinho, política, livros e viagens. Da Europa e da América. Da Argentina, de Portugal e da Cabília com um argelino de segunda geração que se juntou a nós. As garrafas navegavam ate à nossa mesa a boiar entre o fumo e a música do Fateh Ali Khan que se sobrepunha ao barulho das vozes e dos copos a bater. A festa acabou relativamente cedo, porque era domingo à noite. Saímos em clima alegre e descontraído. Voltámos a pé pelas ruas estreitas. A polícia tinha vedado a rua do nosso hostel. Não podíamos passar. Disseram-nos para esperar um bocadinho. No café do marroquino, minutos antes aconteceu um homicídio. Um adolescente foi esfaqueado e esperava-se a ambulância da morgue. A morte do miúdo desconhecido no café, cortou o clima de festa em que seguíamos e foi-nos buscar ao Bordeaux onde alegremente planávamos para nos trazer em voo picado para o mundo real. Estava definitivamente acabado o fim-de-semana. Voltamos sem mágoas, mas sem vontade de ficar muito mais. Sabemos que mais dia menos dia regressaremos. Paris é especial. Dá-nos aquele conforto de sabermos que aconteça o que acontecer, façamos nós os que fizermos das nossas vidas, Paris permanecerá. Paris vai lá estar disponível como uma prostituta madura, cansada, ligeiramente alcoólatra e com mau feitio, mas eternamente bela e sedutora. “Teremos sempre paris”, dizia-se em Casablanca.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Suiça - A contradição dentro da contradição


A Suiça, particularmente a Suiça francófona é assim uma espécie de metáfora da contradição: simultaneamente xenófoba e internacionalista, humanitária e militarista, provinciana e cosmopolita...
Um país construído com a lógica do capitalismo mais que selvagem, onde a industria mais rentável é a especulação financeira. Onde o sigilo bancário é tido como um dos factores de desenvolvimento económico e permite que as contas de ditadores e corruptos do mundo inteiro cresçam e progridam. Onde, em algumas zonas, a tradição proíbe o voto às mulheres. Onde há bancos tão restritos que funcionam com três quatro contas. Onde o serviço militar é obrigatório a todos os homens entre os 18 e os 48 anos. Onde a industria de guerra para exportar é tão reconhecida que ainda hoje o papa vive guardado por mercenários suíços...
O outro lado da moeda mostra-nos uma Suiça que é também a pátria de todos os exilados. Foi na Suiça que Lenine teve oportunidade para teorizar e escrever importantes obras sobre aplicação prática de marxismo. É na Suiça que está a sede das Nações Unidas. Foi na Suiça que se inventou a Cruz Vermelha. Foi aqui que se criaram leis humanitárias para impor na guerra. Mais de 60% da população são emigrantes. Foi em Genebra se que inventou o conceito da tolerância religiosa com Calvino. É na Suiça que o comportamento cívico e de cidadania cria as melhores condições de qualidade de vida urbana mundial, reconhecida nos índices comparativos das cidades…
Creio que é em Calvino, que a Suiça, particularmente Genebra vai buscar esta sua marca.
O calvinismo, na sua moral do trabalho e da religião vivida no mais profundo individualismo, não só aprova como também incentiva o capitalismo no sentido em que valoriza o trabalho indivual para a acumulação de dinheiro e a criação da riqueza pessoal… No entanto é o próprio Calvino diz que: "a riqueza não tem razão de ser se não para ajudar aos que necessitam" e critica a avareza ao dizer que o fruto do trabalho só é digno se útil ao próximo. Esta projecção de uma moral de cariz caritativo continua a estar presente no capitalismo suíço: os bancos suíços fazem fortunas com os juros do dinheiro dos ditadores corruptos do terceiro mundo, mas cedem uma (pequena) parte dos seus lucros para receber os exilados vitimas desses mesmos ditadores…Os grandes joalheiros compram diamantes de sangue, mas continuam a financiar projectos humanitários…
De facto, na Suiça há sempre dinheiro para o financiamento de actividades culturais de cariz humanitário.
A provar esta abertura para uma "cultura humanitária" no início deste Março, temos o Festival de Cinema e Fórum sobre os Direitos do Homem. Cinema e conferencias sobre direitos humanos onde realizadores, actores, e personalidades destacadas na luta pela paz e pelos direitos do Homem se encontam.
Para quem gosta de ver filmes que são feitos fora dos modelos de hollywood, este festival abre uma janela para o cinema africano actual que justifica a escapadinha até esta “Europa a sério”… que agora com a easyjet fica um bocadinho mais perto….
http://www.fifdh.org/index.html